Posterous theme by Cory Watilo

dezembro

o Leminski tem um livro chamado "Vida",
cujas páginas contam quatro biografias:
de Bashô, Cruz e Souza, Trotsky e Jesus.
textos pra aprender, pra admirar e pra subverter.
pra abrir versões.
pra poetizar entendimento.

enfim...
faz mais de dez anos que essa obra caiu em minhas sortudas mãos.
de memória, me pego citando informações do livro,
em especial um fragmento apócrifo sobre Jesus:
"mãe, tem pão?" - a frase humana-demasiado-humana ecoa,
sempre me ganhando sorriso e suspiro.
simples e bonito.

aí que, no oportuno do Natal, resolvi ir atrás do texto querido.
re-encontrei o dito, graças à democracia internética.

copio e compartilho trechinho [logo abaixo!!],
no meu jeito de desejar sentimentos abraçantes
para todos os tu's que espero rever em 2012
e para os quais imagino noite-feliz cheia de presentes,
bem como futuros e passados envoltos em alegrias de estrelas.

ósculos com lápis-de-cor,
Lu Glaeser

Fragmento de um Apócrifo
O Evangelho da Infância conhecido como
Evangelho Segundo Domingos
 
Jesus era menino, passou um cego na estrada.
Jesus foi guiando o cego o dia inteiro, voltou só à noite.
Maria já andava doida:
Onde você andou, menino de Deus?!
Por aí. Tem pão, mãe?
José nem falou nada: só deu o pão.

Dias depois Jesus subiu no telhado.
Maria mandou descer.
José nem ligou:
Se cair, do chão não passa.

Os outros meninos chamavam Jesus de louco: será que tinham razão?
Maria pensava tanto que a massa do pão até azedou.
José só coçou a barba:
O avô que eu mais gostava também era meio louco...

Na feira, Jesus sumia.
Maria procurava cadê, cadê?
Jesus conversava numa roda de homens, ela nem acreditava.
José erguia os ombros:
Por que não?

Depois, Jesus ficava horas olhando as estrelas.
Maria se preocupava:
Que é que você tanto pensa, meu filho?
José sentava do lado dele, ficava cortando um cavaco.
Na hora de dormir, o menino ainda estava lá olhando as estrelas.
Maria chamava:
Vem dormir, filho.
E José dormia resmun­gando:
Quando der sono, ele dorme.

E, um dia, no rio, José viu os primeiros pêlos no corpo de Jesus.
Contou a Maria:
Está virando homem.
Maria suspirou:
Graças a Deus, quem sabe agora endireita.

Mas Jesus agora só queria discutir com doutores.
Maria amassava o pão com o coração miúdo:
Ainda vão prender esse menino.
Já é um moço José sempre corrigia.

Até que um dia Jesus avisou: ia viajar.
Maria ficou piscando de espanto, José se coçou muito antes de falar:
Cuidado com a saúde e veja bem com quem anda.

Jesus voltou anos depois.
Maria ajoelhou quando viu aquele homem entrando em casa.
Graças a Deus foi só o que ela falou.
Oi, mãe disse Jesus abraçando e, depois, olhou em volta Tem pão?

José serrava umas tábuas, parou para abraçar Jesus, conti­nuou a serrar.
Voltou para ser carpinteiro, filho?
Jesus sentou cansado.
Não sei o que fazer da vida, pai.
Viaja mais José falou se coçando um dia você acha o que fazer.
— É — suspirou — acho que vou andar mais um pouco por aí.

LEMINSKI, Paulo.
Vida - biografias de Cruz e Souza, Bashô, Jesus e Trótski.
Porto Alegre: Sulina, 1990.

rafaela mattos | metamorphose optical

rondei a coleção Metamorphose Optical, de Rafaela Mattos,
catando fio de meada.
senti um emudecimento.
como que faltava chão,
enquanto sobravam incógnitas informes, aguardando carne e osso.
o que diz ali?

acho que essa gagueira aconteceu porque me prendi à questão que primeiro surgiu:
como casulo se tranforma em jim morrison
ou vice-versa?
será que está claro e eu que não estou vendo?
me falta um pedaço...

é possível que o empacamento não tenha nem mesmo razão de ser,
pois não necessariamente há esse nexo-dado que procuro.
vício meu, que assim fico cega pra outros pontos de vista.
encasqueto que a aproximção tem lógica
e a curiosidade me faz matutar: qual?

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"Quando dois objetos distintos são dessemelhantes, não contrariam nossa expectativa:
eles mostram-se tais como são comumente e, portanto, não causam nenhuma impressão à imaginação;
mas, quando dois objetos diferentes apresentam alguma semelhança,
ficamos maravilhados, atentos e sentimos prazer.

O espírito humano experimenta uma alegria e uma satisfação inatas
muito maiores em encontrar semelhanças do que em procurar diferenças,
porque, compondo-as, produzimos novas imagens, unimos, criamos, ampliamos nossa reserva de idéias..."

BURKE, Edmund.
Uma investigação filosófica sobre as origens de nossas idéias do sublime e do belo.
Campinas: Papirus, 1993, p.27

====
mas isso não é problema da Rafaela
e ficar andando em círculos não me resolve.

então, que outra-coisa poderia apegar?
o que ficou, como memória do desfile?

me ocorre um aspecto da sensação.
tudo bem, é um elemento exterior à roupa,
mas impactou sobre a criação,
quase que ditando uma forma de ver.

me refiro à música
[the doors - riders on the storm ]
que, ao iniciar, fisga a percepção emotiva.

diria que foi uma espécie de "covardia" escolher trilha assim.
impossível resistir à sedução das notas,
que foram se misturando ao caminhar das figuras,
tomando parte do movimento dos volumes, das estampas,
das curvas convocadas pelas roupas.

tudo de caso pensado, Rafaela?
- fica no suspenso a pergunta -

se com propósito calculado
ou se fruto de uma distraída escolha feliz,
fato é que "riders on the storm" funcionou bem demais.

impregnando a atmosfera com a música,
Rafaela agiu estrategicamente
e envolveu a platéia.

compor o espetáculo, costurando suas partes, é uma façanha.
 
====

"Os desfiles de moda geralmente podem ser vistos como arte performática.
O desfile na passarela é um evento que espetaculariza o ir e vir cotidiano nas ruas da cidade,
mediante recursos teatrais como o palco e a fantasia.
(...) O que acontece durante o desfile é algo que fundamentalmente apela para os sentidos,
num jogo de realidade e fantasia que dilui os limites entre uma e outra
- e essa é a intenção.
É por isso que a passarela deve conter, sempre, o fator 'sensacional',
não se restringindo à apresentação objetiva,
voltada para os espectadores com intuito único de vender as peças da coleção ali apresentada,
ainda que isso seja de suma importância."

AVELAR, Suzana.
Moda: globalização e novas tecnologias.
São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2009, p.118.

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outro momento que gerou sobressalto
foi aparição de Rafaela, no final do desfile.
vestia criação sua - um vestido longo, muito suave,
que trouxe um desfecho leve para a coleção.
inesperado, esse "sétimo look" pegou o olhar de surpresa
e certamente muitos dos presentes teceram comentários sobre a peça.
muitos se experimentaram ali.

Rafaela

imagem emprestada daqui: http://pinkcreamcake.com/page/2

aliás, creio que um dos méritos da coleção é falar com o consumo.
a exemplo da roupa de Rafaela,
outras peças migraram da passarela para o restante da noite,
circulando, com naturalidade.

a coleção de Rafaela traz uma estética possível,
que deseja acontecer no presente, no real.

agora, ao descrever a cena, fico na dúvida:
as modelos saíram do desfile e foram ao coquetel
ou a sensação dessa presença é ilusória
e faz parte do efeito ótico premeditado?

giovanna pontes | autodestruição

conexões aleatórias ou nem tanto

http://www.flickr.com/photos/matangra/6348223908
http://www.flickr.com/photos/matangra/6347475447

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courtney love | nancy spungen | marla singer
[corpo para a roupa]

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:: chuck palahniuk ::

“Nossa geração não viveu uma grande guerra ou uma grande depressão,
mas nós sim, nós vivemos uma grande guerra espiritual.
Uma grande revolução contra a cultura.
A grande depressão é a nossa vida.
Nossa depressão é espiritual".

"Somos os filhos do meio da história
e fomos ensinados pela televisão a acreditar que um dia seriamos milionários,
astros de cinema e do rock,
mas é mentira.
Só que acabamos de saber disso – disse Tyler.
Por isso, não brinque conosco".

PALAHNIUK, Chuck.
Clube da Luta.
São Paulo: Nova Alexandria, 2000, p. 160 e 179.
>> artigo: Clube da luta e a pós-modernidade,
de Maryon Rosalu Caobianco Bassetto ::
http://www.uel.br/eventos/sepech/sumarios/temas/clube_da_luta_e_a_pos_modernidade.pdf

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:: "mate-me por favor" ::
resenha e trechos do livro ::
www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/956498-mate-me-por-favor-conta-como-o-punk-chegou-a-inglaterra.shtml

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"Sua estética ... era uma estética catastrófica do caos,
do lixo, do rasgão, da colagem, da recuperação e do desvio:
uma estética da pura negação e da inversão sistemática de todos os valores.
Com eles, eram todas as hierarquias habituais, sem exceção, que estavam praticamente invertidas:
o feio tomava o lugar do belo, o mau gosto se elegia em bom gosto, se tornava o gosto deles;
o mais vil, como num alambique de alquimista, se transmutava no mais precioso;
todos os valores se invertiam e se anulavam, se igualando;
o caos era festejado como uma nova ordem;
o mais obscuro, o mais torpe, agia como a única luz tolerada..."

BOLLON, Patrice.
A moral da máscara: merveilleux, zazous, dândis, punks, etc.
Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p.132

====
:: nirvana ::
grunge | deboche | destruição [de si, de regras, de limites, de objetos, de ordens]

>> conexão instantânea [embora talvez tolinha], pelo uso dos vestidos

>> ouvir essa música enquanto assiste ao desfile:
you know you're right ::

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:: "o estranho na moda", de silvana holzmeiter ::
nota = http://www.facebook.com/note.php?note_id=268202526564739

"Na moda, o desprezível bem como o temível tornou-se linguagem do mainstream,
para quem o feio era convertido em belo.
Assim o corpo fashionable deixou de ser saudável.
Debilitado ou já sem vida,
tornou-se suporte para roupas igualmente transgressoras,
criadas pelos mais modernos e irreverentes designers
e pelas grifes mais luxuosas."

"Além da positividade encontrada na superficialidade do consumo,
tem-se vivido a frustração, o mal-estar e a pressão
de não encontrar-se inserido nessa bolhar de felicidade.
Há uma espécie de decepção generalizada,
começando por não se conseguir adquirir todos os bens desejados
indo até as limitações impostas pela violência urbana.
Falta tempo para o lazer ou para a família,
vive-se a ansiedade pela conquista e manutenção do peso ideal
após o regime ou uma lipoaspiração,
a insatisfação pelos medíocres serviços prestados pelo setor terciário,
a desilusão com os rumos profissionais,
o medo das descobertas científicas e tecnológicas,
as agruras advindas do estresse."

HOLZMEISTER, Silvana.
O estranho na moda: a imagem nos anos 1990.
São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2010, p.21-26

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:: junky, do burroughs ::

"Talvez todo prazer seja alívio.
Aprendi o estoicismo celular que a droga ensina ao usuário.
Já vi um quarto cheio de viciados em abstinência,
silenciosos e imóveis, num sofrimento solitário.
Eles sabiam da falta de sentido em reclamar ou em reclamar ou em se mover.
Sabiam que, basicamente, ninguém pode ajudar ninguém.
Não existe chave nem segredo que alguém seja capaz de lhe dar."

BURROUGHS, William.
Junky.
Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p.55.


excessos | mayara bernardes

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a imagem dos croquis captura a atenção.
é até um risco mergulhar na primeira impressão
descuidando com adjetivos e deixando elogio sem substantivo.

impossível não ficar intrigado com a hipnose da síntese:
o excesso chega, através da subversão de seu próprio sentido.
o impacto resulta da força da concisão,
que se precisa num conteúdo denso,
exclamado na forma.

o uso pontual - e por isso mesmo instigante - das cores
[cores que se afirmam, que se anunciam sem titubear]
traz uma lembrança de Kubrick,
[cuja identidade visual está relacionada ao poder enunciativo de matizes autoritários].
nas silhuetas, é possível ver Bauhaus,
tanto pelo minimalismo quanto pela ideia de uma construção ligada à função.

do conjunto de figuras
- todas com mensagem própria, embora com intersecções -
destaco, por questão de empatia, o look com capuz,
que sugere novo desenho a um uso que andamos esquecidos de estranhar.

Mayara
imagem surrupiada daqui >> blog pink cream cake http://migre.me/6ai9v

muitas peças desfilam por aí, na rotina,
propondo o adendo do capuz.
muitas vezes ele repousa como volume nas costas,
nem mesmo veste a cabeça,
utilidade que parece óbvia.

na alteração de Mayara, o capuz sai da linha,
ganha outra estrutura, resignifica a informação:
deixa o corpo sofisticado,
na mesma medida em que sugere adequação ao trânsito do sujeito contemporâneo.
e, ainda, evoca a memória de uma figura religiosa
- uma das referências designadas na concepção da coleção.

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"A tradição referente aos deuses, heróis, espíritos, demônios e feiticeiras encapuzados é muito difundida. (...) Para C. G. Jung, o capuz simboliza a esfera mais elevada, o mundo celeste, assim como o sino, a abóbada, o crânio."
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain.
Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números.
Rio de Janeiro: José Olympio, 2003, p.185.
====

a privação de sentidos é elemento chave da comunicação pretendida pelas roupas.
no caso do look com capuz, os olhos são sutilmente encobertos.
essa conexão entre a estratégia da roupa com o conceito subjetivo
distancia-se de uma leitura fácil:
a obstrução da visão traduz alheamento,
ou seja, não significa um simples e dado "não-ver",
mas sim uma espécie de ensimesmamento,
um eu que se encasula em pensamentos
enquanto percorre multidões.

o tom cinza dialoga com cenário urbano,
tanto num sentido de reflexo da paisagem
quanto numa escolha prática:
a exposição às condições da cidade
[corpo em contato com vias e ambientes públicos]
se vê despreocupada de "contaminações" que poderiam comprometer o conforto do movimento.

o cinza absorve as intempéries,
diferente do que aconteceria, por exemplo, na opção pela cor branca.
vejo a figura como transeunte,
disposto a usar transporte público,
caminhar na avenida tumultuada,
possivelmente atravessar uma garoa
e experimentar diversos recursos da cidade.
uma presença, enfim, que se desloca sem receio de estar imprópria.
cinza é uma cor oportuna ao trajeto de muitas possibilidades
[o excesso chega, mais uma vez, de modo consistente e "subliminar"].

o branco limitaria essa fluidez disposta ao acaso.
no fim do dia [ou em poucas horas...], traria vestígios indesejados,
revelaria sujeiras, marcas de esbarrões nos obstáculos da rua.
e não seria efeito bem-vindo.

além disso, num plano simbólico, o cinza remete ao "cerebral",
uma aproximação que se justifica ao considerar que toda a coleção pretende discutir expressões de consciência.
o ser que veste é um ser que questiona.

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"Pelo fato de a cor cinza ser associada com o cérebro [massa cinzenta]
e com as 'áreas cinzentas', que exercitam mais o intelecto
do que questões 'preto no branco'
- e também porque está ligado à idade/sabedoria [cabelo grisalho, 'barba branca'] -,
o cinza é preferido por artistas, intelectuais e filósofos.
Os estudos mostram que os artistas são mais criativos quando trabalham
num ambiente cinza ou com tempo encoberto, enevoado,
do que em cenários mais claros e estimulantes."

FISCHER-MIRKIN, Toby.
O código do vestir: os significados ocultos da roupa feminina.
Rio de Janeiro: Rocco, 2001, p. 49.

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uma pena que o tempo do desfile seja breve demais para contar o processo que conduz ao resultado final.
afinal, as elaborações vestíveis de Mayara nascem de um olhar que decifra e costura vocabulário do presente.
moda, porque é eficiente em materializar um desejo-de-imagem latente.
a roupa esclarece alguma coisa para a qual buscamos linguagem,
torna verbo uma vontade de dizer, encarna um discurso "no ar".
as peças de Mayara nos emprestam, assim, neologismos,
plenos de sentido de epifania.

por outro lado, creio que há conotações artísticas bem pronunciadas.
a criação estimula interpretações reflexivas
[o que trouxe até aqui são nada mais que conjecturas,
livres justamente porque a roupa permite esse passeio].
a disposição dos tecidos, os caminhos da modelagem, a eleição das cores...
tudo convoca à imaginação do corpo que potencialmente habitaria a imagem.
arte, portanto, porque desafia a participação do entendimento,
sem amarrar verdades prontas.

a equação da forma mostra um olhar que foi se apurando,
um estudo que explora conceitos, afastando-se de traduções literais.
parte do acúmulo de informações com as quais nos bombardeia o tempo-agora
e percorre seu avesso.
mostra a face minimalista que filtra a enxurrada de saberes,
devolvendo, como produto dessa interação,
não um sujeito que tudo cataloga, que soma sem propósito,
mas sim uma personalidade,
um alguém que visita criticamente aquilo que lhe é oferecido,
ditando preferências e perspectivas.

os contornos
- fortes mas flexíveis, na medida em que não se esgotam num único estar -
afirmam existência do indivíduo.
mas trata-se do indivíduo pós-moderno [fragmentado e múltiplo]
que é um sendo vários,
requisitando uma presença líquida, plural,
capaz de adaptar-se a diferentes convites do dia,
transformando-se, como uma tela em que se espelham acontecimentos.
toda essa maleabilidade sem que escape a essência, o núcleo, a "matéria-prima"
do nome-próprio.

não me soa nulidade, mas algo como uma camuflagem,
que se funde ao entorno
avisando que é parte atuante,
proporcionando um equilíbrio do si com o exterior.
não causa conflito à percepção, não destoa,
embora consiga, nessa simbiose, uma manifestação inesperada,
com voz e postura distinta do mais-do-mesmo.

expressionismo contemporâneo | anna lasmar

An Evening at The Cabinet of Dr Caligari"
 
"O expressionismo não vê; tem visões."
Lotte Eisner, no livro A Tela Demoníaca

Anna Lasmar, uma das seis finalistas do FAAP Moda 2011,
realizou coleção cujo gatilho foi o expressionismo.
para tanto, vasculhou referências dos anos 1920
- em especial o filme Gabinete do Doutor Caligari -
e percorreu pistas desta estética no ambiente contemporâneo,
o que garantiu uma tradução renovada para o tema.

sem pesar a mão
[um risco que o tema poderia suscitar, já que o expressionismo pede a materialização de excessos emocionais]
Anna consegue uma composição extremamente eficiente,
que bem dialoga com o recorte geral proposto pelo concurso:
os participantes deveriam desenvolver suas criações a partir da interpretação do video "We All Want to Be Young", produzido pela BOX1824.
Anna encontrou no filme - e trouxe para a passarela -
a alusão às identidades instáveis
além de parecer bastante atenta ao jovem como protagonista da discussão.

o "Expressionismo contemporâneo" [título da coleção]
transparece já nas figuras lânguidas dos croquis,
que parecem zumbis elegantes.
ou, oportunamente podemos dizer, remetem ao sonâmbulo Cesare, da história de Caligari.

(download)

quando o desenho ganha corpo,
evidenciam-se traços de atualização do conceito:
cabelos e maquiagem imprimem efeito dramático,
sugerindo mulheres que tanto poderiam representar no cinema expressionista
quanto poderiam ser encontradas na rua,
numa apropriação do estilo por parte de alguma "tribo urbana".

as roupas são bastante urbanas, com senso de realidade.
longe de oferecer versão figurino-carregado,
Anna demonstra como um conceito forte pode ser depurado
e, no esforço do filtro, faz emergir um viés sutil.

síntese, concisão: o foco da coleção está na mistura de texturas
[que divergem nos intuitos],
na disposição de materiais em ângulos quase caducos,
assemelhando-se à precisa confusão imagética que encontramos no Gabinete do Doutor Caligari.
não há um rumo: o olhar dança no delírio das formas,
sinalizando pluralidade.

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Veja fotos do desfile no blog "Pink Cream Cake" ::
http://pinkcreamcake.com/2011/11/11/look-faap-moda-2011-anna-lasmar
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preto, pele, cinza:
as cores obedecem a atmosfera desolada,
vibram no sombrio [que ressoou na música escolhida para o desfile]
versam o mundo interior.
tal como nas artes plásticas,
o expressionismo aqui ganha tintas comprometidas com o universo subjetivo,
contando prestigiadas [e vagas] sensações.

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"A composição é a arte de dispor, de maneira estetizada,
os vários elementos disponíveis ao pintor para a expressão de seus sentimentos".
Henri Matisse, em Anotações de um pintor  
em: BEHR, Shulamith. Expressionismo. São Paulo: Cosac & Naify. 2001, p. 7.
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ambiguidade, vazio, devastação, ruína:
Anna tem sucesso ao vivenciar o processo expressionista
exteriorizando perturbações e incertezas do pensamento.

o imaterial ganha corpo legítimo,
atingindo o espectador com um sopro sinistro.
na possibilidade tátil da superfície,
no jogo das distorções
[cada ponto de vista capta uma face diferente da roupa
- aqui atenção especial ao primeiro look, que revela abundância de impermanências],
Anna explora seu gosto e fala sua marca.

mais que tudo, destaco o agrado de deparar com uma produção de moda que,
tal como filme do Doutor Caligari,
ensaia histórias dentro da história,
provoca reviravoltas,
conversa com a psiquê
e desconcerta, no mudo,
deixando conclusões suspensas.

uma obra aberta, que seduz o alguém a vesti-la,
sem prometer solução linear.
que cada um descubra e exerça suas particulares turbulências.
impossível é ser uniforme.

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Conexões:
O cinema expressionista alemão, por Michel Silva
 Expressionismo como modo de vida e moda, por Ana Claudia de Oliveira
 Dazed & Confused expressionista com Björk, no blog Mural na Moda
Ensaios Experimentais: O expressionismo alemão, no blog A moda é
Reinaldo Lourenço e Expressionismo alemão?, no blog Bainha de Fita Crepe

dilacerados

Faap Moda' 11 - Desfile de Giovanna Loureiro Pontes

a pele em chagas jovens
estigmas.
quase um contra-senso:
o corpo ainda tão imaculado,
toca excesso de possibilidades.

contudo, o turbilhão de seres por-vir
faz febre nas entranhas:
o sujeito, que duvida de si até no próprio nome,
arranca pedaços firmes de carne
na aflição de desfazer-se,
sabendo que nada vai definitivo embora.
utopias violentadas permanecem, fantasmas,
assombrando lembrança no olho que não dorme
refletindo nos braços que desapegam
corporificando humor niilista.

o desenganado grita pra si:
"ascende!
sai do fundo, pega voz!"
mas falha o ânimo,
vence a prostração, vencem os vícios de rotina desbotada.

ouve-se o silêncio,
suspirado junto ao cheiro de gargalhada embriagada.

desejos entorpecidos procuram sono no lixo:
são restos, rasgos, sobrevivências.
corrompido, o inteiro se reinventa na mutilação.
a falta assombra,
embora caminhe indiferente - não faz questão de platéia.
vulnerabilidade, precariedade: não pela ação do outro,
não destinado ao outro,
mas pelo sentimento desregrado
de um eu liquidificado.

a ironia celebrada no farrapo luxuoso.
perdeu a lua,
perdeu o caminho de casa,
tombou patética na via pública:
ficaram arranhões,
hematomas de coesão estilhaçada.
ninguém viu.
ninguém vê.
todos vivem - a mesma cena, diferentes cenários.
apenas variações do tema:
sempre a alma-algoz querendo transpassar o corpo,
atuar na pele, fazer catarse no lado de fora.
mudam efeitos, estilos de dizer, meios.
mas a queda é experiência coletiva.

"me deixa ser fratura exposta!",
implora a angústia sem saber para onde.
confusa, balbucia sensações sem idioma
e mostra o âmago,
pálido,
sujo,
diluído.
carne-viva.

impera o insignificado.
como quem, num instante de lucidez cortante,
vê que tudo tanto-faz.

é bonito e tão caro
como aquela mastigando jóias,
numa gula de pedras que se misturam aos dentes,
ao sangue, à saliva, ao choro de tempestade.

nauseante como um suicídio cotidiano,
desses que chegam pelo jornal da manhã
invadem a noite morna
enquanto alguém passa e vê a hora.

urgentes,
apáticos,
inseguros.
mas fingimos, para ter conforto da norma.
onde habita o sentido?
onde o refúgio?

e quando a dor quer mais?
quando ela berra o tempo de gestação
e nasce rasgando a carne
brotando ferida que borbulha
e tem sina de flor.

não é autoflagelo esse corte,
esse buraco que pulsa cavado no peito.
é vontade maior
de um tempo que atravessa poros
desmemoriado, perdido, andarilho.
solitário.

a ausência faz do corpo estandarte
e tira da vida - tão nova, tão fresca, tão macia -
a face que sorri dis-traída.
agora, no lugar, sem aviso, sem dó,
fica ilustre a cicatriz do nascimento bruto
anunciando marca de quem fitou o nada.

não sai ileso quem deseja se passar a limpo
e de repente se descobre palimpsesto:
todas as letras,
indeléveis,
ressoando abismo,
denunciando um saber que deveria ser proibido.
nada se apaga completamente:
todas as letras,
todas insuficientes.

memórias tecidas

Vestidos1

o livro "Vestidos para lembrar e uma história para contar",
com texto de Lais Fontenelle Pereira e ilustrações de Sara Goldchmit,
surpreendeu a própria diretora da Estação das Letras e Cores [editora que publicou a obra],
dado o interesse que despertou no público leitor.

o êxito nas vendas traz, em seu avesso, a pergunta formigante:
por que algo vende?
o que faz um produto, dentre uma série, saltar da prateleira para as mãos do consumidor?

"Vestidos para lembrar e uma história para contar" narra memória afetiva,
que envolve roupas plenas de narrativas, partilhadas em família.
os desenhos de Sara dão contornos às recordações infantis de Lais, a autora.
as cores, que ganham retalhos de tecidos e aquarela para se expressar,
dizem uma calma que brinca no balanço logo que brota primavera.
o livro soa como uma janela que se abre para uma paisagem de suspiros:
mãos entrelaçadas fazem roda pra cantiga
que conta, simples, um passado acolhedor.

varal de roupas,
balões de festa,
passarinhos distraídos,
castelo de areia.
nostalgia.
aquela da presença-ausência,
a volta impossível para uma casa evaporada,
o empréstimo da sensação de um eu que já não somos - apesar de perfeitamente ser.

a nostalgia,
no que desperta de re/encontro,
sem dúvida sussurra àquele que chega perto do livro.
não só pelo tema, não apenas pelo que o título evoca,
mas também pela estética,
que obedece ao desejo de voz da saudade.

imagino - talvez por ranço de imaginação minha -
que "Vestidos para lembrar" é abraçado principalmente por compradoras-no-feminino.
mulheres que esbarram na imagem da obra
e tomam-na emprestada, vivendo na fábula sua própria versão.

mulheres que sorriem, cúmplices, para Lais e Sara,
repercutindo o encanto em contações de histórias:
sejam estas privadas, na beira da cama de uma nova criança,
ou públicas, como as que vem acontecendo em escolas e outros espaços que promovem a partilha do texto.

a peça de roupa, ainda que guardada apenas na memória,
é fragmento de um tempo,
é testemunho de um eu existido.
uma coisa simples, trivial e, por isso mesmo, tão significativa.
moramos nos detalhes.

somos tão desesperadoramente efêmeros:
saber que o cotidiano, em suas minúcias desavisadas,
pode se transformar num pomar de sentidos...
isso afaga a inquietação.

basta olhar sem pressa, inventando história pra botão,
que nascem das coisas [sim, dos objetos, esses falsos-mudos]
umas tantas músicas, poemas, risadas, sentimentos, inventações.
ver no mínimo apura o olhar.

em "Vestidos para lembrar e uma história para contar",
Lais destaca o valor de um vestido amarelo,
pelo qual aguardou ansiosamente a vez de usar:
cabia bem no aniversário de 6 anos,
querendo ser exatamente como acontecera com a irmã mais velha.

o vestido era mais que vestido:
era pele super-poderosa,
dessas que nos tornam capazes de proezas [até então] intangíveis,
como andar de bicicleta sem rodinhas de apoio
ou fazer bolas de chiclete.

Lais associava o vestido aos acontecimentos,
esperando que, ao fazê-lo pele de si,
as mágicas acontecidas com outras crianças da família nela se repetissem.
com a pele certa, se abrem portinhas do mundo.

hoje, no livro, somos nós quem vestimos
- sempre no empréstimo, sempre com estímulo para passar adiante -
o vestido amarelo que [des]encaminha ao fantástico.

=====
Mais sobre o livro:
Vestidos para lembrar e uma história para contar
Autora: Lais Fontenelle Pereira
Ilustradora: Sara Goldchmit
Editora Estação das Letras e Cores

Frappé - moda de infância

Conheci a Andrea Mello e soube de sua moda de infância,
materializada na marca Frappé.

A vontade de conhecer melhor a moda-de-ser da Frappé
me levou a propor uma entrevista, que a Andrea topou
e queridamente respondeu.

Abaixo, segue o resultado dessa conversa
[que, espero, possa eu repetir com outras marcas
que estejam animadas a assuntar ;)
Fica o cutucão, pra vc que está lendo isso e faz suas artes e invencionices.
Me email-a (pensandoemmoda@gmail.com) pra gente trocar umas letras!
]

1. 
Frappé: o que é? Quem é?
A Frappé é uma marca de acessórios divertidos.
Criamos e produzimos peças para serem usadas no dia-a-dia
(como mochilas, bolsas, chapéus, fivelas...),
mas sempre com um toque descontraído e lúdico,
que agrega uma identidade de design muito forte aos produtos.
Nosso objetivo é tornar o dia-a-dia das crianças mais divertido
e estimular a imaginação.
Afinal de contas existe época mais mágica e criativa do que a infância?

A Frappé é feita por várias mãos e cabeças pensantes.
Mas apesar de muitas pessoas contribuírem
durante o processo de criação e produção das peças,
existem algumas características comuns que funcionam praticamente como
nosso critério de seleção de funcionários, parceiros e fornecedores:
- bom-humor acima de tudo, pois trabalhar precisa ser algo divertido;
- busca pela excelência, ou seja, aqui todo mundo dá pitaco em tudo
e estamos sempre procurando formas de melhorar ainda mais nossos produtos e processos internos
- criatividade, sempre! pois ninguém resolve um problema ou sai do lugar fazendo tudo igual;
- respeito e profissionalismo.

2.  
Quem a Frappé imagina como seu consumidor?

Em termos mercadológicos, nossos produtos são direcionados a crianças de 0 a 6.
Mas eu gosto muito mais de trabalhar com uma definição emocional do consumidor,
pois embora as peças sejam direcionadas para crianças, eu mesma uso váaaaarias
(e passei dos 6 anos há décadas).
Então, na minha visão, todo mundo que gosta de sonhar e usar a imaginação para se divertir,
quem carrega um pouco de infância dentro de si,
vai se identificar com a Frappé.
São pessoas autorais, que possuem um estilo próprio,
valorizam suas ideias e ideais,
vêem a vida com leveza e amam objetos/produtos inusitados.

3.
Que personagem poderia usar criações da Frappé?

A Olive (de Little Miss Sunshine), a Amelie (do Fabuloso Destino)...
Se a Dory (de Procurando Nemo) fosse uma pessoa também usaria.

4.
Que livro e/ou filme inspira a Frappé?

Alguns filmes: Big Fish, O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, Wall-E.
E outros livros: Memórias Inventadas [Manoel de Barros], Princesas Esquecidas ou Desconhecidas [Philippe Lechermeier] e Frases do Tomé aos Três Anos [Arnaldo Antunes].

5.
Música que expressa um tantinho do humor da Frappé...

A trilha perfeita para um desfile: Pato Fu tocando Música de Brinquedo.

6.
Frase ou palavras que sintetizam "valores" que a Frappé deseja comunicar.

Diversão, alegria e imaginação.

Para quem quiser saber mais:
- site = http://www.frappe.com.br (no site tem link para lojinha virtual)
- facebook = http://www.facebook.com/pages/FRAPPÉ/104793772906280
- twitter: @frappebr
- email: frappe@frappe.com.br
- quem andou falando sobre a Frappé: http://frappebr.blogspot.com/p/ja-foi-noticia.html

Brigadão Andrea!!
pelo teu tempo, pelas palavras em tom de prosa,
pela generosidade de tua fala.
Sou suspeita, mas achei que ficou coisa mais-fofa.
Espero que goste de ver a Frappé por aqui
;)
Sorrisão pra tu!
Lu

(download)

os direitos inalienáveis do leitor

1. direito de não ler.
2. direito de saltar páginas.
3. direito de não acabar um livro.
4. direito de reler.
5. direito de ler não importa o quê.
6. direito de amar os “heróis” dos romances.
7. direito de ler não importa onde.
8. direito de saltar de livro em livro.
9. direito de ler em voz alta.
10. direito de não falar do que se leu. 

Daniel Pennac em "Como um Romance",
Porto: Ed. ASA, 1992, p. 155.