a imagem dos croquis captura a atenção.
é até um risco mergulhar na primeira impressão
descuidando com adjetivos e deixando elogio sem substantivo.
impossível não ficar intrigado com a hipnose da síntese:
o excesso chega, através da subversão de seu próprio sentido.
o impacto resulta da força da concisão,
que se precisa num conteúdo denso,
exclamado na forma.
o uso pontual - e por isso mesmo instigante - das cores
[cores que se afirmam, que se anunciam sem titubear]
traz uma lembrança de Kubrick,
[cuja identidade visual está relacionada ao poder enunciativo de matizes autoritários].
nas silhuetas, é possível ver Bauhaus,
tanto pelo minimalismo quanto pela ideia de uma construção ligada à função.
do conjunto de figuras
- todas com mensagem própria, embora com intersecções -
destaco, por questão de empatia, o look com capuz,
que sugere novo desenho a um uso que andamos esquecidos de estranhar.
imagem surrupiada daqui >> blog pink cream cake http://migre.me/6ai9v muitas peças desfilam por aí, na rotina,
propondo o adendo do capuz.
muitas vezes ele repousa como volume nas costas,
nem mesmo veste a cabeça,
utilidade que parece óbvia.
na alteração de Mayara, o capuz sai da linha,
ganha outra estrutura, resignifica a informação:
deixa o corpo sofisticado,
na mesma medida em que sugere adequação ao trânsito do sujeito contemporâneo.
e, ainda, evoca a memória de uma figura religiosa
- uma das referências designadas na concepção da coleção.
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"A tradição referente aos deuses, heróis, espíritos, demônios e feiticeiras encapuzados é muito difundida. (...) Para C. G. Jung, o capuz simboliza a esfera mais elevada, o mundo celeste, assim como o sino, a abóbada, o crânio." CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain.Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003, p.185.====
a privação de sentidos é elemento chave da comunicação pretendida pelas roupas.
no caso do look com capuz, os olhos são sutilmente encobertos.
essa conexão entre a estratégia da roupa com o conceito subjetivo
distancia-se de uma leitura fácil:
a obstrução da visão traduz alheamento,
ou seja, não significa um simples e dado "não-ver",
mas sim uma espécie de ensimesmamento,
um eu que se encasula em pensamentos
enquanto percorre multidões.
o tom cinza dialoga com cenário urbano,
tanto num sentido de reflexo da paisagem
quanto numa escolha prática:
a exposição às condições da cidade
[corpo em contato com vias e ambientes públicos]
se vê despreocupada de "contaminações" que poderiam comprometer o conforto do movimento.
o cinza absorve as intempéries,
diferente do que aconteceria, por exemplo, na opção pela cor branca.
vejo a figura como transeunte,
disposto a usar transporte público,
caminhar na avenida tumultuada,
possivelmente atravessar uma garoa
e experimentar diversos recursos da cidade.
uma presença, enfim, que se desloca sem receio de estar imprópria.
cinza é uma cor oportuna ao trajeto de muitas possibilidades
[o excesso chega, mais uma vez, de modo consistente e "subliminar"].
o branco limitaria essa fluidez disposta ao acaso.
no fim do dia [ou em poucas horas...], traria vestígios indesejados,
revelaria sujeiras, marcas de esbarrões nos obstáculos da rua.
e não seria efeito bem-vindo.
além disso, num plano simbólico, o cinza remete ao "cerebral",
uma aproximação que se justifica ao considerar que toda a coleção pretende discutir expressões de consciência.
o ser que veste é um ser que questiona.
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"Pelo fato de a cor cinza ser associada com o cérebro [massa cinzenta]
e com as 'áreas cinzentas', que exercitam mais o intelecto
do que questões 'preto no branco'
- e também porque está ligado à idade/sabedoria [cabelo grisalho, 'barba branca'] -,
o cinza é preferido por artistas, intelectuais e filósofos.
Os estudos mostram que os artistas são mais criativos quando trabalham
num ambiente cinza ou com tempo encoberto, enevoado,
do que em cenários mais claros e estimulantes." FISCHER-MIRKIN, Toby. O código do vestir: os significados ocultos da roupa feminina. Rio de Janeiro: Rocco, 2001, p. 49.
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uma pena que o tempo do desfile seja breve demais para contar o processo que conduz ao resultado final.
afinal, as elaborações vestíveis de Mayara nascem de um olhar que decifra e costura vocabulário do presente.
moda, porque é eficiente em materializar um desejo-de-imagem latente.
a roupa esclarece alguma coisa para a qual buscamos linguagem,
torna verbo uma vontade de dizer, encarna um discurso "no ar".
as peças de Mayara nos emprestam, assim, neologismos,
plenos de sentido de epifania.
por outro lado, creio que há conotações artísticas bem pronunciadas.
a criação estimula interpretações reflexivas
[o que trouxe até aqui são nada mais que conjecturas,
livres justamente porque a roupa permite esse passeio].
a disposição dos tecidos, os caminhos da modelagem, a eleição das cores...
tudo convoca à imaginação do corpo que potencialmente habitaria a imagem.
arte, portanto, porque desafia a participação do entendimento,
sem amarrar verdades prontas.
a equação da forma mostra um olhar que foi se apurando,
um estudo que explora conceitos, afastando-se de traduções literais.
parte do acúmulo de informações com as quais nos bombardeia o tempo-agora
e percorre seu avesso.
mostra a face minimalista que filtra a enxurrada de saberes,
devolvendo, como produto dessa interação,
não um sujeito que tudo cataloga, que soma sem propósito,
mas sim uma personalidade,
um alguém que visita criticamente aquilo que lhe é oferecido,
ditando preferências e perspectivas.
os contornos
- fortes mas flexíveis, na medida em que não se esgotam num único estar -
afirmam existência do indivíduo.
mas trata-se do indivíduo pós-moderno [fragmentado e múltiplo]
que é um sendo vários,
requisitando uma presença líquida, plural,
capaz de adaptar-se a diferentes convites do dia,
transformando-se, como uma tela em que se espelham acontecimentos.
toda essa maleabilidade sem que escape a essência, o núcleo, a "matéria-prima"
do nome-próprio.
não me soa nulidade, mas algo como uma camuflagem,
que se funde ao entorno
avisando que é parte atuante,
proporcionando um equilíbrio do si com o exterior.
não causa conflito à percepção, não destoa,
embora consiga, nessa simbiose, uma manifestação inesperada,
com voz e postura distinta do mais-do-mesmo.